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Inspire-se. Depois, pedale!

Na matéria da semana passada contamos a história da veterinária Silvane Protti aqui de Ijuí e também da brasileira Roseane Souza, que mora em Dublin. As duas elegeram a bicicleta como meio de transporte diário para as diversas situações de seu cotidiano. Clique aqui para rever. Hoje, o papo é com o professor Paulo Fensterseifer que atua como docente e pesquisador do curso de Educação Física da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUI).

Na entrevista a seguir, Paulo conta um pouco sobre a sua rotina e como a bicicleta está inserida nela. Além de discutir aspectos culturais e políticos a respeito do tema. Confere aí:

Terra Vermelha – Sabemos que você usa a bicicleta como um meio de transporte para se deslocar no seu dia a dia aqui em Ijuí. Como iniciou essa sua história com a bike?

Paulo Fensterseifer – Obviamente tem uma relação com a infância. Nesta fase, ganhar uma bicicleta é um momento singular na vida. Era o mais esperado dos presentes de Natal.  Ganhei a bike e passei a andar por aí. Depois teve um período de rompimento, quando eu passei estudando fora, em Santa Maria.  Ao terminar o curso de Educação Física na UFSM, voltei pra Ijuí, comecei a trabalhar em uma academia e à noite fazia o curso de Filosofia na UNIJUI. Eu tinha uma moto que foi roubada. Aí eu comprei uma bicicleta usada. E com essa bicicleta usada eu comecei a ir para o trabalho, pra aula, enfim. Na época eu fazia militância política aí ia visitar os filiados também de bicicleta. Então, começou um vínculo estreito com o uso da bicicleta. Assim como o gaúcho pampeano era com o cavalo, era eu com a bicicleta.

Então, a minha relação com a bicicleta foi se dando assim porque pra mim aquilo era natural. Só com o tempo houve um estranhamento. Comecei chamar a atenção porque não era normal, as pessoas não usavam a bicicleta no dia a dia e assim que podiam comprar um carro se desfaziam dela. Afinal, esta relação é sempre vista do ponto de vista utilitário e pra mim ela não cabe nesses enquadramentos. As coisas do mundo sensível e de uma certa gratuidade como é a questão do lúdico, elas sempre precisam de uma justificação externa, tem que servir pra alguma coisa.

Então, a relação que as pessoas faziam com o fato de eu andar de bicicleta era de sempre buscar uma justificativa externa, tipo, o Paulo não tem carro, o Paulo não quer gastar gasolina, o Paulo está preocupado com a questão da saúde, ou o Paulo está preocupado com a questão ecológica. Quer dizer, sempre tem que colar alguma coisa ao fenômeno, dificilmente se entende o fenômeno em si, ou seja a relação que você estabelece com o andar de bicicleta, que é uma relação sinestésica. Uma relação que tem a ver com o gostar que não precisa justificar com algo externo ao próprio fato. Então, começou por aí, foi criando esse vínculo.

Terra Vermelha - Como é essa sua rotina?

Paulo Então... O que eu faço normalmente e o que os outros fazem de outro modo: eu vou pro trabalho de bicicleta. Principalmente de manhã que é um horário que eu posso sair cedo porque o clima está mais agradável. Outra coisa é que quando meus filhos eram pequenos eu buscava-os na escola de bike. Chegou a ter momentos que estavam os dois em cima da bicicleta. Se tornou uma coisa interessante, porque lá na escola tinha uma pracinha e nenhum filho queria vir pra casa depois da aula... e eu, quando eles sabiam que tava de bicicleta, eles viam correndo porque curtiam andar de bike comigo.

Então, além da rotina do trabalho... quando preciso ir ao mercado, na padaria... eu vou de bicicleta e percebi que é mais ágil do que até eu encontrar estacionamento para um carro. Com a bicicleta é possível parar na frente do estabelecimento que tu quer.

E dentro dessa rotina tem um momento que eu uso a bicicleta que é no final de semana, domingo de manhã normalmente eu faço um percurso no interior de bicicleta, percursos mais longos no caso. Daí tem mais a ver com essa coisa do exercício, contato com a natureza, uma outra lógica.

Mas, uma coisa que eu nunca consigo curtir é usar a bicicleta em uma relação com o tempo, por exemplo, querer vencer um percurso em tempo x. Quando eu saio de bicicleta eu esqueço o tempo. Procuro fugir dessa ditadura do tempo. É interessante que com a bike eu já tenho a noção de tempo. Eu já penso na hora que eu levanto, tomo café, a hora que eu vou sair com a bicicleta. Eu consigo manter isso com mais regularidade, com o carro não é a mesma relação, eu sempre deixo pra última hora e chego atrasado.

Terra Vermelha – O que, na sua opinião, poderia ser implantado ou melhorado por aqui para ampliar o uso das bikes no dia a dia das pessoas?

Paulo – Ijuí já tem o problema do terreno acidentado, então, por exemplo, na relação leste/oeste, é praticamente impossível não enfrentar situações de aclive/declive, já no norte/sul tem alternativas. Até eu digo que os córregos de Ijuí correm nesse sentido, então, é um bom indicativo de como você poderia construir ciclovias perseguindo o percurso das águas.

Além disso, têm coisas que não são específicas de Ijuí, a cultura do automóvel ela é mundial. O carro não é possível pra todo mundo. Se toda a humanidade andar de carro, o oxigênio do mundo vai acabar. O carro é um bem de uso limitado. O que se assiste é a questão do encantamento, como eu falei essa questão do hibridismo, o carro faz parte do sujeito, o sujeito veste o carro. Eu tinha um amigo meu que vendia apartamento, ele dizia que é mais fácil vender um carro do que um apartamento. O apartamento poucas pessoas sabem onde tu mora, em que condições tu mora, mas, o carro todo mundo sabe que carro tu tem, o carro virou um adereço, virou uma roupa.

A partir dessa relação com o carro, criou-se uma cultura do automóvel que acaba fazendo com que o meio urbano, a cidade, seja gerenciada em função dos carros. São poucas experiências no mundo de enfrentamento à cultura do carro. Um exemplo que eu cito é o caso de Paris. Paris teve um prefeito que infernizou a vida do automóvel.  Ele infernizou a vida do automóvel, no sentido de que não tinha lugar pra estacionar.

Hoje a gente discute, criar mais lugar pra estacionar... alargar as ruas...  fazer guias..., viadutos... sempre se pensa em aumentar as possibilidades para o carro, mas, nunca se pensa em como constranger o uso do carro. Acho que falta uma política pública voltada para isso. Algo que nos convença de que é melhor sair de casa a pé, de bicicleta, de transporte público, do que de carro.

Tenho uma experiência interessante na Alemanha. O meu maior impacto quando cheguei por lá foi ver o volume de bicicleta, mas, logo fui entendendo, isso é resultado de uma cultura que potencializa o uso da bike.

É claro que eles têm dificuldade, obviamente, com a questão do volume de carros. Eu lembro que tinha um sociólogo alemão que dizia que os alemães fazem carro pra andar a 200 km por hora e conseguem andar a 20 km porque de tanto carro na rua não consegue andar mais.

Mas, por lá eu vivi a possibilidade de circular de bike em uma via toda em formato de ciclovia. Os carros respeitavam a bicicleta. Há uma cultura que eu acho legal que é a ideia de que o próprio cara que está de carro, a sua “consciência de culpa”, faz com que ele tenha no ciclista uma referência – ele também deveria estar de bicicleta – então ele tem uma certa admiração pelo sujeito que faz. Então, na questão do uso bicicleta não é só uma questão de consciência, mas é uma questão de construir mecanismos culturais que potencializem a cultura da bike como meio de transporte diário.

Terra Vermelha – Quais os benefícios que a bicicleta trouxe para a sua vida?

Paulo – Uma forma para refletir sobre isso é pensar o que no seu dia a dia poderia ser feito com o uso da bicicleta. Muitos pais já têm percebido a importância, por exemplo, de levar de bicicleta as crianças na escola, quando são pequenas, acaba sendo um diferencial de ganho na qualidade da relação.  Ao invés de ser aquela briga, senta no banco de trás, coloca o cinto... Normalmente o que as pessoas fazem é pensar o dia, o trabalho, sem o uso da bicicleta, e no máximo chegam em casa e vão pedalar. É legal, tudo bem. Mas, dá pra tentar incorporar, juntar esses dois elementos. Na medida em que você sai pra rua e encontra mais gente de bicicleta é muito legal, é uma experiência quase de solidariedade.

Terra Vermelha – Como você avaliaria as políticas públicas atuais de incentivo ao uso de bicicletas?

Paulo – Se discute no Congresso que a cada nova via teria que vir junto uma ciclovia planejada. O ideal é que teria que ter uma política para constranger o uso do automóvel. Por exemplo, se pegar uma via que é de mão dupla hoje, você pode transformar ela em uma única mão e preservar lugar para uma ciclovia. Os motoristas vão gostar disso? Com certeza, não. Mas, é uma opção. Precisa o poder público estar muito bem solidificado, fazer uma ampla discussão em relação aos ganhos disso, pra que esse sujeito que perca entenda porque ele está perdendo, que é a ideia da república, a ideia do bem comum, todos ganham com isso.

É muito comum as pessoas dizerem assim “tem muita moto em Ijuí”. Mas, o mesmo sujeito que diz isso não diz “tem muito carro”. A moto, do ponto de vista do espaço/ecológico é muito melhor que o carro. Como diz um engenheiro mecânico que conhecido meu, o carro é uma péssima invenção do ponto de vista ecológico, olha o volume de coisa que tu tem que mover pra movimentar uma pessoa. É por isso que a moto é muito mais racional.

Então, hoje é preciso uma lógica de enfrentamento. O espaço é finito, tu não pode multiplicar o espaço, mas, tu pode disputar ele, na lógica, por exemplo, da bicicleta, não só na priorização do carro. Pra além dessa discussão onde se está discutindo uma via nova, no espaço que já existe estabelecer prioridades. E a cidade vai se desenhando conforme essa ideia de disputa. Então, se houver um processo de discussão dos ganhos dessas mudanças, haveria mais chances de viabilizá-las.

E a outra coisa é a cultura do ciclista, esse é um baita problema. Na posição de motorista eu percebo o problema do ciclista, ciclista aparece repetidamente na contramão... ele não obedece a lógica do trânsito. Um sistema rodoviário quanto mais complexo, mais exige cumprimento de regras, então, o ciclista também tem que se enquadrar nessas regras. Não dá pra ele se comportar no trânsito de uma forma alheia ao processo. O ciclista também teria que aprender a se comportar no trânsito.

O que a bike representa pra ti?

Paulo - Não é uma coisa objetivável. É uma extensão, é uma lógica de estilo de vida. Gosto da bicicleta porque ela me desacelera. Às vezes, tu está andando de bicicleta e passa os carros a mil, eu fico me perguntando, onde vão com tanta pressa? Qual é a lógica desse aceleramento, estão ganhando o que com tudo isso?