e- revista
Hortas em ambientes internos: como fazer?

Na hora de cozinhar, os temperos são o segredo para um prato delicioso, não é? Melhor ainda (e mais saudável, claro) é cultivar as próprias hortaliças em casa. O biológo João Pedro Arzivenko Gesing faz questão disso. Há três anos cuida da sua própria horta. Além de temperos e verduras, João tem um pomar com jabuticaba, goiaba, figo, pitanga, guabiju, amora, framboesa, entre outras frutas. A horta é mantida através da compostagem, onde ele transforma o lixo orgânico em adubo para fertilizar a terra. João tem sua horta em ambiente externo. Mas, e no caso de ambientes pequenos e internos, como apartamentos, de que forma podemos cultivar uma horta bacana? Pra esclarecer algumas dúvidas, confira a seguir a nossa entrevista com o biólogo:

João Pedro Arzivenko Gesing atua como biólogo na Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Ijuí e também como professor do curso de Ciências Biológicas da UNIJUI.

 

Terra Vermelha – Qual lugar da casa é o mais indicado para cultivar uma horta?

João Pedro Arzivenko Gesing – A primeira coisa pra cuidar é a insolação. Todo tipo de horta é muito exigente de luz. Na sombra, a planta pode até se manter viva, mas não vai se desenvolver. Assim, o ideal é escolher o lugar na casa com a maior incidência de luz, como a sacada do imóvel ou a varanda. É bacana que a planta receba algumas horas de incidência direta de sol. Outro cuidado que se deve ter é do contato dos animais de estimação com os potes dos temperos, dado que eles podem derrubar os recipientes. No caso das hortas verticais (aquelas dispostas nas paredes das casas, por exemplo) precisa-se ter uma atenção maior com a drenagem da irrigação, monitorando para que a água não escoe para outras residências do prédio.

Terra Vermelha – Que tipo terra/substrato deve-se usar?

João – Como são plantas que tu não tens o cultivo direto no solo – o qual tem toda uma ciclagem de nutrientes, micro-organismos, minhocas que aeram o solo – você não tem isso dentro de um pote, ele é um ambiente restrito. Então, você vai precisar compensar isso de alguma maneira. O ideal é você adquirir em floriculturas, agropecuárias, um substrato, pra plantas residenciais, plantas domésticas, ou um composto vindo da compostagem, que ele vai ter uma boa relação carbono/nitrogênio – por um bom tempo tu não vai ter necessidade de adubar as plantas. Outro detalhe importante principalmente em se falando de apartamentos é a troca anual do substrato. Uma vez por ano, geralmente no final do inverno, início da primavera, quando você vê que as primeiras plantas começam a acordar da dormência do inverno, indico fazer o transplante da planta. Ou seja, pegar o pote, tirar toda a terra de dentro do pote, expor as raízes – não em tempo prolongado – tira o substrato, pega um substrato novo e coloca dentro do pote. Com as mãos, preencha e espalhe a terra por todos os espaços vazios, todos os bolsões de ar. Depois faça uma bela rega, regue até que a água saia clara. Quando a água sair transparente o transplante foi concluído.  

Terra Vermelha – Em relação ao recipiente. Tens alguma sugestão?

João – Sobre o tamanho do recipiente é muito relativo.Você vai observando o crescimento da planta e vai graduando. Se ela crescer escolha um maior. O ideal é cada tempero ter o seu recipiente, por causa do transplante.

Terra Vermelha – Na hora de escolher o tempero, o que você indicaria?

João – Assim, pra quem vai começar invista no mais fácil. Não começar com plantas muito exigentes. Começa pelo mais simples e depois vai progredindo. Por essa razão, recomendo iniciar cultivando o manjericão. Esse tempero dá uma resposta muito rápida, é fácil de cultivar. Se tu for plantar 3, 5, 10  tipos diferentes de temperos, e eles começarem a morrer, vai provocar a desmotivação da pessoa que vai acabar desistindo da ideia da horta. O manjericão leva cerca de seis meses pra estar pronto ao uso. Partindo desse, a pessoa pode ir agregando outros, como a hortelã, o alecrim, a manjerona... Em relação às verduras, pelo mesmo motivo, recomendo iniciar pela rúcula.

Terra Vermelha – Semente ou muda, o que você sugere?

João – Sugiro sempre a muda, que é também acessível, em torno de R$2,00 em agropecuárias, por exemplo. Isso porque a muda oferece um resultado muito mais rápido e eficaz.  

Terra Vermelha – Qual a frequência que deve-se molhar a planta?

João – Meu conselho é sempre monitorar a umidade do substrato. Se está úmido, não precisa regar. Caso estiver seco, coloque um pouco de água. Se a pessoa não tem tempo, paciência de fazer o monitoramento, indico molhar a planta diariamente com um pouco de água.

Terra Vermelha – Tem alguma época do ano que é mais indicada para iniciar o cultivo?

João – Se a pessoa estiver ansiosa para iniciar os trabalhos com a sua horta, qualquer época do ano é válida. Contudo, quem conseguir se planejar, ou já tem uma horta e deseja fazer novos plantios, o ideal é na primavera, período em que a planta está com o metabolismo mais ativo.

Terra Vermelha – Na hora de coletar o tempero, por exemplo, pra usar na comida, tem algum método ideal pra preservar a saúde da planta?

João – A planta só está pronta para ser consumida, quando ela estiver vigorosa, com um verde bonito – no caso do manjericão. Se estiver essa aparência, o ideal é nunca tirar mais de um terço da massa verde da planta. Tirou 1/3, usa o que tu quer, o restante seca e deixa a planta se recuperando. O tempero seco ele nunca vai ser igual ao in natura, mas a maior parte dos temperos vão manter, por exemplo, o odor que é aquilo que se espera dele.

O biólogo também destaca sobre essa cultura de cultivar o próprio alimento. Segundo ele, as técnicas de permacultura ainda estão engatinhando no Brasil. Nos Estados Unidos e países da União Europeia, por exemplo, essa prática é muito mais avançada. Além da segurança alimentar, se envolver nessa prática oferece gratificação pessoal, destaca João.

“O ato de cultivar plantas e estar mais próximo à natureza influencia diretamente nosso estado emocional. Conheço pesquisas em que pessoas que são tratadas em leitos hospitalares, quando o quarto tem uma janela com vista para o verde, o paciente tem em média um dia a menos de tratamento. Os estudos também revelam que o simples fato de ter um quadro com uma paisagem verde já influencia no psicológico dos indivíduos, contribuindo para a qualidade da sua imunidade”, destaca e finaliza ele.